domingo, 1 de janeiro de 2012

Sol

 O laranja do céu se misturou com o mar. Dali, da areia, podia sentir o frescor da brisa de fim de tarde, mas era incapaz de dar atenção a ela. Buscava algo mais, algo... Além.
Abraçou os joelhos, erguendo ligeiramente o queixo até tocar o antebraço e enfim deixar-se repousar ali, admirando o que lhe parecia, daquela distância, inalcançável.
Perguntou-se se era possível tocar nos raios de sol que eram os fios do cabelo dela. Ou talvez... A pele acobreada? Podia aceitar isso. Definitivamente podia. Se ela quisesse, podia mostrar algumas manobras de surf, ainda que certamente ela soubesse muito mais. Inventaria alguma. Podia fazer isso. No entanto, contentava-se em admirá-la de longe.
Fechou os olhos um instante – aquele era o perfume dela misturado ao vento? Era bom, combinava com o cheiro de verão. Não se admirava, com o sol nos cabelos era natural que fosse filha da estação mais quente de todas. O riso era quente, também. A viu dar o último mergulho do dia, um arrepio leve na nuca, mas sem se movimentar. Ajeitou-se mais um pouco em sua posição de admiradora e então... Ela a olhou. Um sorriso pequeno e suave despontou de seus lábios, apaixonado. Perguntou-se se ela sabia como inclinava quase imperceptivelmente a cabeça para o lado quando sorria, os olhos com tanta vida quanto se podia ter. A correnteza invisível dos verdes dela puxava e puxava, num desejo mal de afogar pobres coitados que se aventuravam, mas a maldade não combinava com ela. Talvez só ela mesma se sentisse puxada, e o resto das pessoas não, mas ao seu ver era incabível que algo do tipo acontecesse. Eram... Lindos. Como ela, por inteiro.
- Lia? – A voz repentina a tirou de seus devaneios, despertando-a com um sobressalto. Viu o sorriso quente aparecer nos lábios dela. Seu coração acelerou. – O que foi? Parece chapada – Aquela risada faria seu peito explodir. – Vamos. O Nando ta me esperando lá em casa. Ele disse que vai me dar uma surpresa pelo campeonato. Imagina!
Nando. Claro. Frequentemente se esquecia dele, não era por mal.
- Ah... Foi mal, ‘tava viajando. – Ergueu-se da areia, pegando a prancha enterrada ao seu lado. Sorriu, notando pela milésima vez naquele dia a cabeça da loira inclinar-se ligeiramente – Vamos. E é bom que seja uma surpresa boa! Você mereceu o campeonato.
Numa deliciosa tortura, pegou a mão dela. Sempre voltavam de mãos dadas para casa, era a forma de dizerem, sem palavras, que sempre estariam juntas, uma para a outra, incondicionalmente. Sentiu os dedos formigarem, como sempre faziam ao toque as palmas, mas não pôde sentir. Naquele momento não buscava nada mais, a felicidade de estar com ela era o suficiente para se completar. 

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